Entre versos e textos

Sobre meu TOC: Aritmomania

junho 23, 2020



Desde muito nova, eu tenho essa “mania”, de contar cores e números. O tempo inteiro. Tanto que se tornou parte de mim, quase sem perceber que estava aqui, acontecendo, a cada minuto. Eu converso, contando. Eu assisto TV contando os detalhes e cores das roupas das pessoas na tela. Eu conto tudo ao meu redor. Eu penso, contando. Muitas vezes me pego involuntariamente mexendo os dedos, contando.
Então, com 23 anos, eu percebi o quanto isso fazia parte de mim, sem eu me dar conta. E que quando eu tentava parar, minha mente entrava em estresse imediato.
Cheguei a achar que não era algo que me afetava tanto quanto outros níveis de TOC, até eu notar o quanto em vários momentos, músicas, músicas que gosto inclusive, se tornam barulho e fico perturbada. Existem momentos, corretos para ouvir músicas, e as músicas corretas. E isso cada dia se intensifica mais.
Se qualquer coisa atrapalha meus raciocínios, tudo vira caos aqui dentro. Porque nada pode confundir a ordem estabelecida pelo meu cérebro. Preciso conferir a mesma coisa, várias vezes. Tudo isso, de modo muito intenso.
Eu tenho certa ordem para fazer certas coisas, muitas coisas. Se algo acontece sem ser como planejado, entro em um estresse muito alto. Se me propõem ir a um lugar novo, me estresso, prefiro lugares que já conheço, que sei ir, sei voltar. Prefiro estar em casa, porque se, se eu passar mal, se algo der errado, eu tenho o controle da situação.
As pessoas não notam muito, ou não notam, minha insegurança, a minha quietude, escondendo meus dedos contando, tenho medo de notem.  
A minha psicóloga disse que se eu não conseguisse parar, teria de tentar com medicamentos.
Então, seria isso? Me medicar o resto da vida?
O primeiro passo para parar, disse ela, seria ocupar a mente para distrair os pensamentos, quando estou sem fazer nada. Mas, o problema, é que, a Aritmomania, não deixa de acontecer em momento algum, nem quando estou ocupada. Se tornou uma parte de mim, como piscar os olhos.
Então, ela me pediu, para registrar quando, e em que momento, eu notasse que a mania entra em pausa e para, eu achei que não existisse esse momento.
Mas, houve um momento, em que, simplesmente, parou, a desordem e os números se calaram.
Tudo pareceu em perfeita sincronia.

Foi quando eu olhei nos olhos dele, depois de muito tempo sem nos ver e ele me beijou.


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